E foi preciso vencer mais de quarenta degraus para chegar lá. Antes disso houve o preparativo para a noite da redenção. Barba feita e na água quente que saia da torneira eu me benzi. Me benzi de mentira. Só para fazer um jogo de cena em frente ao espelho, com cada mão formando um L, como se fosse a câmera de um plano sequência de um filme que nunca vai existir. Ou melhor: existirá para mim e ELA. Coloquei a melhor camisa, calça, cueca, par de meias e sapatos que tenho. Não sou belo, mas posso dizer que sei andar, apertar os olhos, mira-los na direção certa e, como dizem, improvisar.Antes de chegar ao topo pensei em coisas que ouvi por aí. Todo mundo ouve coisas e eu não sou diferente. Acontece que a narrativa sempre é fácil, sutil ou dura, informativa ou superficial. Mas narrativa é só a narrativa. Enfim, ouvi por aí que não sou capaz de construir poemas. Até aí tudo bem. Para quem não quer ser poeta isso é suave. Ouvi também que não sou mais capaz de fazer reportagens. Para quem ainda depende disso para pagar as contas do mês isso poderia ser grave, caso não passasse de uma comédia... Que de divina não tem nada, mas mesmo assim me descolou um sorriso até que babaca. Mas é assim: alguns amigos me chamam de A Lenda, Will Smith, mestre do improviso e doutor jão. E os amigos já me avisaram que "os inimigos vão contar histórias, que meus inimigos vão falaaar...". Normal. Aliás, normal é coisa que eu não sou rs.
E para não confundirem isso aqui com uma perseguição ou mensagem subliminar vou direto: esse texto aqui é para vocês. Todos. Não tenho Orkut e nunca vou ter. Não tenho ânsia de dizer as coisas anonimamente e nunca terei. Amizade para mim não é oportunidade, conveniência e nem cheque em branco. Não é coleguismo, turma ou torcida organizada. Não é barulho ou ação em conjunto. Também não é abraço de bêbado. Isso é coisa de loser. E tudo que for diferente disso para mim é sinônimo de amizade.
De cima do edifício mais alto de São Paulo, com um copo de usíque na mão, eu cheguei ao topo. Cada um dá o seu jeito para chegar lá. O meu não é travestido com sorriso e nem falso moralismo. Ainda sou do tapa na cara, mas sempre com o olho no olho. Isso é o que eu chamo de Tiroteio.
E pode dar que eu tô de colete. O novo endereço é aqui.

